Diante da pandemia, mães se desdobram ainda mais para dar conta de família e trabalho


Diante da quarentena de prevenção do novo coronavírus, os tradicionais almoços familiares de Dia das Mães vão ter que ser modestamente adaptados para encontros digitais via aplicativos, ainda rendendo homenagens a elas. Mas a realidade do dia a dia é mais pesada, com as medidas de contenção da pandemia, os relatos que trazem essas mulheres ao Brasil de Fato são de rotina extenuante, sobrecarga e ainda mais responsabilidades.

“A gente chega na pandemia já com uma situação que todos os indicadores mostram que as mulheres são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidados. Isso se mostra na jornada de trabalho total, quando junta o remunerado e o não remunerado, que é sempre maior para as mulheres”, analisa a socióloga Tica Moreno, que integra a Sempreviva Organização Feminista (SOF).

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do ano passado, mulheres dedicam em média 18,5 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, na comparação com 10,3 horas semanais gastas nessas atividades pelos homens.

“Nesse período da quarentena é justamente uma sobrecarga das mulheres, porque uma parte da vida passou a se concentrar nas casas. Então, tudo o que significa dessa relação – da saúde mental e como as coisas vão se desenvolvendo –, mas a gente também tem o concreto de todo dia, da limpeza da casa, de tirar o lixo, de tirar poeira, de lavar as roupas, dar comida junto com a presença em tempo integral das crianças de diferentes idades em casa”, contextualiza Moreno.

Além do trabalho doméstico e de cuidado, há ainda a carga mental do trabalho emocional, ainda mais invisível. São as mulheres que, em geral, tomam a frente no planejamento e no gerenciamento da casa e do cotidiano, tentando prever as necessidades de todos e se preocupando com a saúde da família.

É o caso da secretária Miriam Hermógenes dos Santos, de 47 anos, que aponta que “as mulheres que carregam o piano”. Ela trabalha na Central de Movimentos Populares (CMP), que, desde o início da pandemia, intensificou o trabalho com o desenvolvimento de ações de solidariedadepara as famílias mais vulneráveis diante da crise sanitária e econômica. Mãe de quatro filhos, avó de dois netos e filha de uma mãe no grupo de risco com 83 anos e câncer, ela se desdobra para dar conta da família, do trabalho e da militância.

“O volume de trabalho com a central é muito grande, a gente tem iniciado muito cedo, encerrado muito tarde para dar conta dos projetos. O piano é grande, a casa, as desavenças com a filha, que às vezes quer sair por não quer compreender que tem que ficar [em casa]”, relata Santos, que é divorciada.

Ela acompanha e faz a ponte das arrecadações de mantimentos e das contribuições recebidas pelo portal movimentoscontracovid19.com, em que as doações são recebidas em mais de 280 pontos de distribuição de todo o país e, em São Paulo, ela coordena a distribuição da sede para as demais regiões do estado.

Para dar conta da intensidade do serviço, Miriam mudou com a mãe e a filha de 15 anos para a sede da organização. O filho de 24 anos ficou na casa dela no centro de São Paulo, devido ao trabalho deixá-lo mais exposto ao vírus. Os outros dois filhos não moram com ela, o de 28 anos está há mais de quatro anos nos Estados Unidos, e a de 26 anos mora no interior de São Paulo com o marido e o neto mais novo.

“Todo sábado eu vou pra casa lavo a roupa, a do meu filho que está lá, trago a roupa molhada na sacola e estendo aqui, deixo uma comida mais ou menos organizada. O tempo todo apavorava porque meu filho que mora em Washigton trabalha com aplicativo. É preocupação tentando falar todo dia e o medo dele ligar e falar que não está bem. Eu fico toda hora apavorada, uma coisa que não quero receber esse tipo de notícia”, desabafa.

O ritmo da militância, para ela, é uma forma de se sentir bem e, também, de retribuir toda a solidariedade que teve quando passou por grandes dificuldades há 23 anos, quando estava com quatro filhos pequenos, desempregada e sem casa para morar. “Eu me conhecendo como me conheço, a melhor escolha que eu fiz foi fazer isso, por mais que eu redobrei meu trabalho. Mas eu estaria muito frustrada e depressiva se eu estivesse em casa sem poder fazer nada. É muito trabalho, mas é muito pouco perante a tudo que está acontecendo aí fora”.

Sem isolamento

Para sustentar a filha de 4 anos e ajudar a família, a babá Bruna Mendonça Carvalho, de 30 anos, não pode parar de trabalhar. Após o início da quarentena, ela também teve que se mudar provisoriamente. Sua casa fica no Grajaú, periferia da zona sul de São Paulo (SP), ao lado da casa dos pais e, agora, está na zona oeste, na casa do namorado.

A mudança não foi uma escolha. Como trabalham home office, os patrões precisaram que ela continuasse trabalhando durante a semana no cuidado do filho deles de oito meses. Para não se arriscar no transporte público a contrair a covid-19, ela passou a morar mais perto do trabalho para que fosse possível o pagamento do motorista de aplicativo pelos patrões.

Desde então, só vê a filha aos finais de semana quando vai para a casa dos pais, onde deixa a pequena aos cuidados da avó. “Eu tive que vir para um lugar mais perto, que é a casa do meu namorado. Daí eu fico na semana no meu namorado e volto final de semana para minha casa, que fica a uma casa da casa da minha mãe. Daí eu vou lá vejo ela, cuido dela, vou na feira, no mercado, porque praticamente a família toda não está trabalhando, só eu”, conta Carvalho.

Ela faz parte do grupo de 11 milhões de famílias no Brasil compostas por mães solo, segundo o IBGE, que não tem com quem compartilhar o trabalho dentro de casa e, antes da pandemia, o cotidiano do trabalho já não permitia que mãe e filha estivessem próximas. Ela pagava uma outra pessoa para cuidar da criança e perua para ir a creche, além de contar com o apoio da mãe.

“É difícil, mas antes da pandemia, eu já me separei muito tempo, então eu já ficava muito distante dela. Ficava mais com ela no final de semana, porque eu tenho que trabalhar. A minha filha me manda mensagem, a gente conversa por celular”, conta.

O que mais preocupa é o sustento da família. Os pais são trabalhadores informais, do ramo do comércio e da construção civil, e não tem conseguido renda devido ao isolamento. Apenas ela está com emprego e renda no momento. “Como na minha família ninguém está trabalhando, então está um pouco difícil, porque o psicológico da gente fica um pouco afetado”, relata.

À distância

Outro foco de sobrecarga está nas mães que também são profissionais de saúde. Além da intensidade do trabalho com a covid-19, também passam pelo peso das mudanças em casa para prevenção e cuidado da família. As mulheres são 70% dos trabalhadores da área de saúde e do terceiro setor no mundo, segundo estima um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) do ano passado. No Brasil, cerca de 85% das enfermeiras são mulheres.

A médica obstetra e ginecologista Daniela Menezes, de 32 anos, tem um filho de quase dois anos, e há mais de quarenta dias vê o filho apenas por aplicativo de vídeo. Assim que o aumento do número de casos e a quarentena do novo coronavírus ficaram evidentes na cidade de São Paulo, ela e o marido, que também é médico, resolveram levá-lo para ficar com os avós paternos na cidade de Arujá, interior de São Paulo, como medida de proteção.

“A gente levou nosso filho para os pais dele exatamente porque não teríamos como cuidar dele em casa sem acabar comprometendo a segurança e a saúde de uma terceira pessoa, que fosse uma babá contratada ou algo do tipo, e, ao mesmo tempo, a gente não tinha como e nem passou pela nossa cabeça, por um direito ético, de não trabalhar nessa pandemia”, pontua Menezes.

Daniela acompanha partos humanizados em hospitais pelo Coletivo Nascer e relata que o trabalho aumentou muito, visto que os profissionais de saúde estão mais vulneráveis ao vírus. Além disso, alguns obstetras que tiveram contato com a covid ou estão no grupo de risco foram substituídos. Além da multiplicação dos cuidados, seja nos atendimentos mais rigorosos com a triagem dos sintomas da covid, seja na paramentação.

A sobrecarga de trabalho acompanha a saudades do filho. “Tem dias melhores, tem dias piores, eu costumo ficar bastante emotiva quando falo disso. Mas ele é muito bebê, então entende muito pouco, para não dizer nada, sobre a pandemia, sobre os motivos da gente estar isolado, então isso acaba sendo um pouco mais dolorido. Ao mesmo tempo, a gente conversa bastante pelos aplicativos de vídeo e, por mais que a gente esteja longe, sabe que ele está melhor do que estivesse com a gente. Ele está menos exposto e estamos expondo menos pessoas em todo esse processo também”, conta a médica.

Apesar das mudanças, Menezes compreende que ainda tem um espaço de privilégio por poder deixar o filho com os avós e reflete que a pandemia escancarou o que a romantização da maternidade de “belas tardes de sol no parque” esconde. “Se é para falar em maternidade e maternagem real, eu acho que é um bom momento para refletir ainda mais sobre ela, esse momento que não existem respostas certas, nunca existiram, na verdade, mas agora mostra isso de modo mais escrachado mesmo.”