Coronavírus ou dengue: com qual devemos nos preocupar? Com ambos, responde pesquisadora


Milhares de pessoas estão muito preocupadas com o coronavírus, que vem se espalhando rapidamen- te pelo mundo e no Brasil. Outras apontam que o importante é se pre- ocupar com a dengue, uma doença mais letal, que não está controlada no Brasil e já causou 750 mortes no ano passado, atingindo mais de 1,5 milhão de pessoas, um dos piores anos desde o início dessa série histórica.

Quem tem razão?

Infelizmente, todos. Não é uma questão de escolha entre uma coisa ou outra. Temos de nos preocupar com o coronavírus e com a dengue.

Assim como temos de trabalhar para combater a fome e a obesidade, doenças antigas e doenças novas, comuns e raras, doenças que atraem a atenção e doenças negligenciadas.

Talvez o maior risco mesmo seja o das notícias falsas que causam pânico. O coronavírus é uma doença que precisa ser controlada, tem alto índice de contágio, e ainda não sabemos muitas coisas sobre o comportamento que a epidemia pode ter. As notícias falsas sobre as medidas contra o vírus podem piorar a situação, causando danos, deixando de proteger as pessoas, afetando a disponibilidade do sistema de saúde e até a economia.

A desinformação causou um movimento antivacinas que hoje é um dos principais problemas de saúde mundial. Doenças que já haviam sido controladas voltaram, e o seu potencial de causar mortes e sequelas graves é bem maior, inclusive, do que o do coronavírus.

Qual o tratamento que aborda todos esses problemas ao mesmo tempo? Ciência.

Olhe em volta. Praticamente tudo o que você vê ou é fruto de pesquisa ou pode se beneficiar de uma pesquisa. Algumas coisas funcionam muito bem no Brasil. A ciência é uma delas.

Cientistas brasileiras sequenciaram o genoma do coronavírus em dois dias – o que levou 15 dias em outros países. Outros países estão pedindo nossa ajuda. Fruto de colaboração, muita dedicação e investimento em ciência. Os grupos participantes dessa força-tarefa vieram de instituições públicas de pesquisa. 

Nós temos cientistas em saúde pública, virologia, doenças infecciosas, ciências básicas, imunologia, comunicação e gerenciamento de desastres, entre tantas áreas necessárias, que são reconhecidos mundialmente. Mas esses cientistas estão encontrando cada vez mais dificuldades de trabalhar, com redução de orçamento para a ciência, deterioração das condições de trabalho e desvalorização de todo o esforço que fazem pela sociedade brasileira.

E isso não acontece somente na área da saúde. Temos cientistas de referência em todas as áreas.

Não fazer pesquisa é depender eternamente do conhecimento produzido por outros países, em outros contextos, que nem sempre se aplicam ao nosso.

O grande problema da ciência é que levamos anos para construir uma linha de pesquisa, projetos consistentes e resultados visíveis. Por outro lado, o desinvestimento aparece muito rápido. O Brasil subiu, na última década, da centésima posição nos rankings mundiais de produção científica para a décima-terceira posição, principalmente graças às universidades e a um investimento consistente em formação de mestres e doutores. 

Para retomar esse crescimento ou reinstalar projetos de pesquisa asfixiados pela falta de recursos, pode levar anos. Nesse meio tempo, po- deremos desperdiçar grande parte do que já foi investido. Um projeto 90% completo é o mesmo do que 0% completo, em muitos casos: a falta de verbas em fases finais de projetos cria situações absurdas como a de ter equipamentos, mas não ter insumos ou pessoal para utilizá-los. Além disso, é claro, a desvalorização provoca a deses- perança de uma geração inteira de futuros cientistas, levando à fuga de cérebros e, em última análise, ao retrocesso do país.

Ciência não é gasto. É investimento. O desinvestimento em pesquisa resulta em uma queda progressiva não só da produção científica, mas de indicadores relacionados, inclusive de economia. Muitos países mostraram que uma saída para a crise é investir mais em ciência, e não menos. Portanto, devemos nos preocupar com a dengue, tanto nas medidas ao nosso alcance, como evitar água parada, fazer o descarte consciente do lixo, limpar terrenos, calhas e outros locais que favorecem a proliferação do mosquito, como com as condições de saúde da população, que aumentam o risco da doença.

E devemos, sim, nos preocu- par com o coronavírus. Fazer todas as coisas que já devemos fazer para evitar a gripe e outras doenças: lavar as mãos, manter a higiene das superfícies, evitar aglomerações, cuidar da saúde em geral. E, é claro, defender a ciência brasileira.

POR LUCIA CAMPOS PELLANDA
Médica, reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA)