Coronavírus, gravidez e amamentação: O que você precisa saber sobre essa relação


“Estou grávida, posso transmitir coronavírus para o meu bebê?”/ “Há alguma informação disponível sobre amamentação e o vírus?” / “Quais cuidados devo ter durante a gravidez?” / “Tenho um bebê de poucos dias em casa, eu e ele corremos o risco de pegar coronavírus?” / “Há possibilidade de má formação?”

Após a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar pandemia do novo coronavírus e mudar os protocolos de orientação de como tratar os casos de infecção, dúvidas surgiram, também, entre mulheres que estão gestantes, atravessando o período de pós-parto ou amamentando seus bebês.

“Todos nós, nesse momento de pandemia, precisamos nos proteger. Não há ainda evidências se o coronavírus se desenvolve de forma diferente em gestantes. Até o momento, não parece ser nada diferente da evolução na maior parte das pessoas do ponto de vista brando e não progressista”, diz Jamal Suleiman, infectologista do instituto Emílio Ribas, em São Paulo.

Apesar da alta capacidade de disseminação do novo coronavírus, em cerca de 80% dos casos de contaminação, os sintomas aparecem de forma leve. Menos de 5% dos casos evoluem para um quadro grave. A principal preocupação é com idosos e pessoas com doenças crônicas. Em infectados com menos de 50 anos, a taxa de mortalidade é de menos de 1%.

Porém, o especialista faz uma recomendação. ”Especificamente as mulheres grávidas, é importante que evitem aglomerações e não recebam visitas recorrentes. E é importante frisar que, se, por acaso, ela estiver convivendo com algum sintomático respiratório [pessoa com sintomas de gripe ou covid-19], que peça para que a máscara seja usada”, afirma o infectologista.

A doença pode ser transmitida pelo contato com secreções contaminadas. Entre elas, gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo (toque ou aperto de mão e contato com objetos ou superfícies contaminadas), seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Transmissão do coronavírus para o feto foi descartada 

Segundo a OMS e a Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), em protocolo divulgado no início de março, a transmissão do coronavírus de mulheres grávidas para o feto foi descartada. Este contágio é conhecido como “contaminação vertical”, ou seja, direta.

O documento destaca que o único estudo clínico disponível que relaciona mulheres, gravidez, amamentação e coronavírus, foi realizado na China e analisou amostra de seis grávidas que tinham a doença.

Foram observados o líquido amniótico, o sangue do cordão umbilical, o leite materno ― além de testes em vias respiratórias de recém-nascidos. Todas as amostras deram negativo e a possibilidade de má-formação não foi indicada.

Na epidemia do zika vírus, que começou a dar sinais no Brasil em março de 2015, mães e gestantes foram as mais afetadas. Foi comprovada a relação direta entre o vírus e o diagnóstico de microcefalia, uma má-formação irreversível no cérebro. O vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti.

“Em relação ao feto, em princípio, não há nenhuma evidência de que haja algum tipo de contaminação”, reforça o especialista do Emílio Ribas que ainda destaca a importância de, durante a gravidez, as mulheres tomarem a vacina contra a influenza, ou seja, a vacina contra a gripe.

As gestantes, segundo o Ministério da Saúde, pertencem ao público-alvo de campanhas de imunização. Isso porque a vacina provoca um efeito “protetor” tanto para a gestante, quanto para o feto. “Pela sua condição de gestante, ela tem uma baixa imunidade. E elas devem tomar a vacina”, frisa Suleiman.

O médico aponta que a vacina, neste caso, não ajuda no combate ao coronavírus - porque ainda não há a cura para ele. Mas que, se a gestante está imunizada contra a gripe, é possível que isso auxilie no chamado “diagnóstico diferencial” de infecções respiratórias.

“Se ela apresentar sintomas e tiver tomado a vacina, no momento da análise, eu já deixo de cogitar o risco de influenza e passo a pensar na possibilidade do coronavírus”, aponta o especialista.

O documento da Febrasgo diz que, entre as principais orientações para gestantes estão evitar aglomerações, contato com pessoas febris e apresentando sinais de infecção respiratórias. Além disso, considerar que a higienização das mãos, evitar contato das mãos com boca, nariz ou olhos são as medidas mais efetivas contra a disseminação destas infecções.

“Sabe-se que são as informações mais importantes e falam de estratégias simples, mas difíceis de serem efetivadas na prática”, aponta o artigo.

Se estou contaminada, devo deixar de amamentar?

Mesmo infectadas, lactantes não devem deixar de amamentar. “Até agora a recomendação é de não interromper a amamentação, muito pelo contrário. É nesse momento que o bebê está recebendo anticorpos”, diz o infectologista.

Uma dúvida recorrente é se o leite materno pode, eventualmente, estar infectado pelo vírus - já que é um fluido corporal. Até o momento, não há estudos que apontem relatos de transmissão pelo aleitamento.

Como o leite fornece anticorpos e reforça o sistema imunológico do bebê, a orientação de especialistas é dar continuidade à mamada e, inclusive, oferecê-la em livre demanda - de acordo com a necessidade do bebê.

Novamente, o infectologista destaca que, ao manter a amamentação, a recomendação são os cuidados básicos que já criam barreiras para a proliferação da doença: lavar as mãos, usar a máscara e álcool gel.

“O que deve ser feito, eventualmente, é usar a máscara quando estiver lidando com o bebê, caso apresente sintomas. E fazer o que todo mundo já está fazendo: evitar aglomerações, lavar as mãos e fazer o uso do álcool em gel. Se tiver algum sintoma, buscar assistência médica. Até o presente momento, essa é a recomendação”, orienta Suleiman.

O especialista frisa que, caso a mãe tenha necessidade de afastamento do bebê ou não quiser amamentar, o leite pode ser ordenhado e oferecido - mesmo que a mãe apresente sintomas. Caso haja necessidade, a fórmula também pode ser introduzida, mas sempre de acordo com orientação médica.

Devo me preocupar com o conceito de “pandemia”?

Nesse contexto, em termos práticos, ao optar por declarar uma pandemia, a OMS direciona os esforços dos países não para a detecção de novos casos, mas sim à fase de mitigação: adotar medidas para evitar mais mortes.

Este conceito é usado quando uma doença infecciosa ameaça em larga escala a população de forma simultânea em todo o mundo. O principal fator para se conceituar uma pandemia é a sua característica geográfica, e não necessariamente a gravidade da doença. A última enfrentada foi a gripe suína, em 2009.

É importante destacar que a humanidade enfrenta pandemias há centenas de anos. A primeira que se tem registro data de 1580, quando um vírus influenza se espalhou pela Ásia, África, Europa e América do Norte.

“Tudo isso começou em dezembro. Estamos em março, no primeiro trimestre de conhecimento do vírus. Ainda não há respostas para todas as dúvidas que surgem porque ainda há estudos que estão sendo desenvolvidos. Estamos correndo contra o tempo”, pontua Suleiman.