Academia Santarritense de Letras: Chorar. Por que não?



Se tem uma coisa que me aborrece profundamente é esta questão cultural em relação à verbalização dos sentimentos para vocês homens! Como mãe, procurei educar meus filhos para verbalizar suas emoções: quando eram pequenos lia histórias para eles e chorava juntamente com eles, procurava fazer com que dessem nomes às emoções que eram desencadeadas por elas. Falávamos de forma despretensiosa sobre os seus sentimentos e sobre como se sentiam em determinadas circunstâncias de suas vidas. Lia poemas e cantava e dançava com eles, beijava-os e abraçava-os sempre que sentia vontade e todas as manhãs ao acordá-los. Que delícia! Ao deixá-los à porta da escola, beijava-os novamente, mesmo que morressem de vergonha! Assistia aos filmes na companhia deles e chorava ou ria, dizia-lhes que estava com saudades, que sentia falta deles, que estava feliz ou triste, enfim falava sobre os meus sentimentos para que eles pudessem se identi car e entender o que sentiam. Deitava-me em suas camas quando iam dormir e conversávamos longas horas sobre o que os afligia ou alegrava, alertando sobre a necessidade de se expressarem para fazer com que se entendessem e entendessem as pessoas com que conviviam. Ríamos e chorávamos juntos, fazíamos piadas com as situações cotidianas minhas ou deles para que percebessem que tudo nesta vida tem começo e fim, que nada é para sempre!!! E que por isso não deveriam levar a vida tão a sério. Espero que isso os tenha ajudado a se conhecerem e a melhorar a forma como se relacionam com as pessoas. Sempre lhes digo que não podem ter medo de viver! Espero ter colaborado para que sejam mais autoconfiantes e mais preparados emocionalmente. Afinal homem chora sim! E as mulheres adoram homens que choram! Revela coragem de enfrentar os desafios e de se superar!

Sempre considerei ser extremamente cruel com os meninos esta cultura de cercear ou dificultar a capacidade de expressão de seus sentimentos com o único intuito de parecerem fortes. Forte é quem consegue superar as adversidades e recomeçar porque conhece seus limites e suas potencialidades, e conhecendo seus limites busca a superação deles, de forma resiliente. Além do mais, já é tão difícil conviver quando se consegue expor os sentimentos... impossível quando não há este momento! Às vezes, por causa desta incapacidade de verbalizar os sentimentos perdem-se oportunidades de realização pessoal e pro ssional, perde-se o amor de nossas vidas. É o mesmo que se sabotar, esconder-se para não se revelar! Mas qual o problema de se revelar para a pessoa em quem se confia? Compartilhar sentimentos são as palavras que devem ser incorporadas ao vocabulário masculino; ninguém consegue ser feliz sozinho... tão bom sentir a ressonância dos sentimentos, a reciprocidade, o apoio...

Como mãe, fiz a lição de casa com meus pequenos e como esposa também! Foi um trabalho árduo, porque vocês homens acham que devem ser perfeitos e que expor seus sentimentos os coloca numa situação de vulnerabilidade! Puro equívoco! É tão bom chorar junto e entender o porquê de uma frase mais indelicada ou de uma ausência, pois quando isto acontece, nós mulheres arquitetamos mil justi cativas e com certeza não será nenhuma delas, pois imaginamos o pior. O silêncio transforma tudo em monstros que destroem nossa alegria e constroem distâncias às vezes tão intransponíveis que deterioram o relacionamento de forma irreversível!

A felicidade é uma questão só nossa! Dançar, cantar, abraçar e beijar, mandar mensagens, falar o que se sente nem que chorando muito! Tudo isso é viver! Não importa o que as pessoas pensam, todas elas são passageiras em nossas vidas! E ter passado por nós deve ser uma experiência enriquecedora para elas e para nós, pois são nossas pegadas em sua existência! Mas só podemos deixar nossa marca, se formos verdadeiros! Se tivermos vivido intensamente todos os nossos sentimentos com estas pessoas! A nal somos todos passageiros nesta via- gem e o tempo que teremos juntos é tão pequeno, um sopro! Temos obrigação de escolhermos ser felizes, mesmo que isso possa signi car um pouco de sofrimento. É preferível ter vivido intensamente a ter sobrevivido sem a paixão de viver!

Se eu morresse hoje levaria uma saudade imensa de tudo o que vivi e a tristeza de tudo o que ainda pretendia viver, mas vivi tão intensamente! Só me arrependo do amor que não dei, das palavras de amor que não falei e dos beijos e abraços que caram calados em mim porque não os pude dar.

Porto Ferreira, 06 de outubro de 2016.

Tânia Maria Carniato Francalacci 
E-mail: romatari@gmail.com 
Membro da Academia Santarritense de Letras
Membro da Academia Luminescência do Brasil/Araraquara
(ALB/Araraquara)